Como avaliar o motorista Idoso?

INTRODUÇÃO:

O mundo está envelhecendo e o número de idosos que ocupam os mais diversos espaços é cada vez maior, não sendo diferente no tráfego. Nos EUA, em 2017 cerca de 28 milhões de pessoas com 70 anos ou mais tinham licença para dirigir. Em São Paulo, estado brasileiro que detém o maior número de condutores, cerca de 13,5% destes correspondem a motoristas idosos. Diante dessa nova e acelerada realidade, se faz necessário considerar algumas peculiaridades – de cunho ético, individual e coletivo – relacionadas a essa crescente parcela da população. 

VISÃO GERAL:

Para a condução segura de um veículo é necessário que as funções visual, motora e cognitiva estejam preservadas e funcionando de maneira harmônica entre si. Patologias que cursam com o prejuízo de uma ou mais dessas funções podem levar, direta ou indiretamente, a um desempenho inadequado.

Assim, com o passar dos anos, ocorrem algumas alterações nos diversos órgãos e sistemas que são inerentes ao envelhecimento, podendo ser potencializadas por condições adquiridas.

No que se refere a habilidade para dirigir, identificam-se: 

Alterações fisiológicas:Alterações adquiridas:Consequências:
VisãoRedução da da quantidade de luz que atinge a retina, menor sensibilidade a contrastes, prejuízo da visão periférica, prejuízo na acomodação e da noção de profundidade (presbiopia).Degeneração macular, retinopatias diversas, catarata, glaucoma.Piora da acuidade visual. 
MotricidadeDiminuição da flexibilidade, da força, da velocidade da marcha, do tempo de reação e do equilíbrio.Sequelas pós-AVC, distúrbios do movimento – como a doença de Parkinson -, neuropatias periféricas, artropatias e sarcopenia.Lentidão em situações que exijam movimentos rápidos, tanto dos membros superiores quanto inferiores. 
CogniçãoDiminuição da velocidade de processamento, da atenção seletiva e das funções executivas e visuespaciais.Transtornos neurodegenerativos e psiquiátricos, distúrbios do sono, alguns fármacos de uso crônico e comorbidades em geral.Dificuldade em elaborar ações apropriadas para evitar acidentes, falta de atenção às sinalizações, falha na elaboração de rotas, no reconhecimento de outros motoristas e na percepção de suas velocidades e distâncias, etc. 

Sendo assim, dirigir vai se tornando uma tarefa cada vez mais difícil (e arriscada) para a pessoa idosa. Por isso, ao menos inicialmente e a depender da magnitude dessas alterações, algumas estratégias podem ser utilizadas para manter a independência e minimizar os riscos “ao volante”.

Por exemplo: 

  • Evitar horários de “pico”;
  • Evitar dirigir ao anoitecer / a noite;
  • Evitar dirigir em condições climáticas adversas (neblina, chuva);
  • Evitar altas velocidades;
  • Preferir dirigir pequenas distâncias e por rotas conhecidas, 
  • Se possível, estar acompanhado; 
  • Matricular-se em aulas de segurança para condutores idosos. 

Um fisioterapeuta e um terapeuta ocupacional podem auxiliar nas adaptações necessárias para um melhor desempenho na condução veicular., apesar do objetivo ser a manutenção da autonomia e independência do indivíduo pelo maior tempo possível, em algum momento as limitações serão proibitivas. Mas esse “crivo” deve ser dado após uma avaliação criteriosa e não baseado em “achismos”. 

Quanto ao envolvimento em acidentes de trânsito, os idosos respondem por um pequeno percentual. Entretanto, os idosos apresentam menor capacidade em resistir aos traumas, não só pela redução das reservas orgânicas, mas também pelas comorbidades presentes (densidade mineral óssea reduzida, atrofia cerebral, cardio/pneumo/nefropatias, etc).

Apesar de muitos idosos, voluntariamente, evitarem a direção ao perceberem suas limitações, dados americanos indicam que o número de acidentes automobilísticos envolvendo indivíduos com mais de 70 anos vem crescendo, sendo esse crescimento ainda mais expressivo após os 85 anos.

A maior prevalência de doenças neurodegenerativas pode – em parte – explicar esses achados, conforme sugeriu um recente estudo ao evidenciar que 60% dos motoristas idosos eram portadores de CCL e, 30%, de demência!

CONDUÇÃO DE VEÍCULOS E DEMÊNCIA: COMO PROCEDER?

O diagnóstico de demência por si só, NÃO é suficiente para impedir uma pessoa de dirigir. Pacientes portadores de quadros leves (geralmente iniciais), ainda são considerados aptos para esta função, mas devem ser avaliados regularmente.

Outrora, indivíduos que se encontram numa fase moderada da doença, muito provavelmente, já não mais preservam essa habilidade para uma condução segura.

Alguns sinais de “alerta” incluem:

  • Não lembrar da localização de destinos conhecidos ou se esquecer para onde está indo durante o percurso;
  • Não respeitar a sinalização de trânsito;
  • Cometer erros em cruzamentos (por exemplo, ir na direção contrária ao fluxo, não atentar para a “cor do sinal”);
  • Se manter “fora” das faixas;
  • Bater em meios-fios;
  • Confundir os pedais de “freio” e “acelerador”; 
  • Dirigir numa velocidade inadequada (muito lenta ou rapidamente para o contexto); 
  • Ficar confuso no tráfego ou tomar decisões “mal planejadas”. 

É comum o paciente com demência não ter a real percepção das suas limitações. Por isso, é de extrema relevância os relatos de familiares e cuidadores para compor a impressão do avaliador. 

COMO AVALIAR?

Avaliar um idoso com comprometimento cognitivo quanto a sua aptidão para dirigir não é algo simples. Inclusive porque, até o momento, não existe qualquer ferramenta padronizada para esta finalidade.

Testes de rastreio cognitivo (por exemplo, o MEEM), podem SUGERIR um motorista sob risco, mas NENHUM deles é capaz de determinar e, muito menos quantificar, essa limitação.

No consultório, testes  que melhor avaliam as funções executivas, visuespaciais e atenção, como o “Teste de trilhas A e B”, o “Teste do desenho do relógio” e “ Testes de labirintos”, expõem com maior precisão as dificuldades relacionadas a condução de veículos.

Ainda assim, uma análise minuciosa pode ser necessária, incluindo:

-uma avaliação neuropsicológica extensa

-“driving simulation”

-E “on-road test” (o equivalente a nossa ‘prova prática do Detran’) – este último considerado o “padrão-ouro” para identificar um bom condutor por avaliá-lo num cenário “real”, mas não validado em pacientes com prejuízo cognitivo. 

Isso porque, as funções cognitivas mais diretamente relacionadas ao ato de dirigir são as executivas e visoespaciais e, em alguns pacientes, as habilidades mais comprometidas podem ser outras, como memória e linguagem.

Aqui no Brasil, qualquer indivíduo que seja alfabetizado e imputável, além de possuir um documento de identificação – RG, carteira de trabalho, passaporte – e CPF, tem o direito requisitar uma Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Estae será concedida após uma extensa avaliação, que engloba: exames médico e psicotécnico, cursos teórico e prático de formação de condutores e provas teórica e prática- estas realizadas pelos departamentos de trânsito de cada estado (DETRANs).

No que se refere a avaliação psicotécnica, são aplicados alguns testes com o objetivo de melhor analisar a memória de trabalho, raciocínio lógico, capacidade de resposta a estímulos e traços de personalidade.

A atual validade da CNH é de dez anos para pessoas com até 50 anos. Para motoristas com idades entre 50 e 70 anos, este prazo passa a ser de cinco anos e, após os 70, de 3 anos. Por fim, para pacientes diagnosticados com demência, a CNH deve ser renovada anualmente – ou antes, a depender da avaliação.

Sendo assim, a decisão final deverá englobar a percepção do médico, muitas vezes corroborada pelo desempenho do indivíduo nos testes psicotécnicos e pelo histórico de infrações.

DE FATO, NÃO É MAIS PRUDENTE DIRIGIR. E AGORA?

Muitos idosos encaram o ato de dirigir como um marco de independência e podem reagir de maneira negativa à restrição dessa “liberdade”. Se após uma avaliação criteriosa, for constatado que realmente chegou a hora de suspender essa licença, seja por uma questão física e/ou cognitiva, algumas estratégias podem ser adotadas: 

  • Conversar com o paciente de maneira franca, respeitosa e SEM CONFRONTOS, deixando claro o foco na sua segurança e na segurança dos demais motoristas e pedestres; 
  • A emissão de um laudo por parte do médico assistente após os devidos esclarecimentos, parece facilitar a aceitação pelo paciente;
  • Lembrar que, o fato de haver uma limitação para dirigir, não impede o idoso de realizar outras atividades que lhe são prazerosas, dentro e fora de casa. Se for viável para a família, contar com o apoio de um motorista particular ou custear corridas de táxi são algumas alternativas para manter o “direito de ir e vir”; 
  • É de suma importância evitar o isolamento social. O apoio da família e de uma equipe multidisciplinar é essencial na adaptação às novas restrições, influenciando diretamente na qualidade de vida do paciente. 

Caso haja grande relutância, familiares e cuidadores devem ser orientados a dificultar o acesso do paciente ao veículo. Vale ressaltar que dirigir não é um direito, mas um privilégio concedido pelo Estado através de uma licença e que cabe ao médico assistente e/ou aos órgãos relacionados ao trânsito, identificar o momento em que o mesmo deve ser encerrado.

# REFERÊNCIAS:

1.Driving ability in mild cognitive impairment and dementia. Schmidtke K. Fortschr Neurol Psychiatr. 2018 Jan;86(1):37-42. doi: 10.1055/s-0043-119988. Epub 2018 Jan 17. PMID: 29342485 Review. German.
2.Driving and Alzheimer’s dementia or mild cognitive impairment: a systematic review of the existing guidelines emphasizing on the neurologist’s role. Stamatelos P, Economou A, Stefanis L, Yannis G, Papageorgiou SG. Neurol Sci. 2021 Dec;42(12):4953-4963. doi: 10.1007/s10072-021-05610-7. Epub 2021 Sep 28. PMID: 34581880 Review.
3.Driving in the elderly in health and disease. Carr DB, Stowe JD, Morris JC. Handb Clin Neurol. 2019;167:563-573. doi: 10.1016/B978-0-12-804766-8.00031-5. PMID: 31753155 Review.
4.Driving Problems in the Elderly and Cognitively Impaired. Haussmann R, Buthut M, Donix M. Pharmacopsychiatry. 2017 Sep;50(5):197-202. doi: 10.1055/s-0043-109560. Epub 2017 May 18. PMID: 28521367 Review. German.
5.Driving Ability in Alzheimer Disease Spectrum: Neural Basis, Assessment, and Potential Use of Optic Flow Event-Related Potentials. Yamasaki T, Tobimatsu S. Front Neurol. 2018 Sep 7;9:750. doi: 10.3389/fneur.2018.00750. eCollection 2018. PMID: 30245666 Free PMC article. Review.
6.Driving Performance in Older Adults: Current Measures, Findings, and Implications for Roadway Safety. Toups R, Chirles TJ, Ehsani JP, Michael JP, Bernstein JPK, Calamia M, Parsons TD, Carr DB, Keller JN. Innov Aging. 2022 Jan 7;6(1):igab051. doi: 10.1093/geroni/igab051. eCollection 2022. PMID: 35028434 Free PMC article. Review.

      Links:

  1. https://www.sbgg-sp.com.br/sera-que-e-hora-de-parar-de-dirigir/
  2. https://www.sbgg-sp.com.br/quando-e-hora-de-parar-de-dirigir/
  3. https://www.aprovadetran.com.br/blog/cnh/
  4. https://www.aprovadetran.com.br/blog/exame-medico-e-psicotecnico/
  5. https://www.folhape.com.br/economia/saiba-como-tirar-e-renovar-a-cnh/211782/

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